3.3. A LENDA DOS MARINHOS

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Nos tempos da reconquista da península Ibérica, existiu um cavaleiro, grande amante da caça, que vivia no Minho, num belo castelo à beira-mar. Chamava-se D. Froião ou D. Froiaz.
Um dia, quando andava à caça, chegou a uma garganta entre dois montes, onde uma ribeira se juntava com o mar, e aí encontrou uma formosa mulher marinha, adormecida na margem. D. Froiaz aproximou-se com toda a cautela e conseguiu agarrá-la e capturá-la.
O fidalgo mandou baptizá-la com o nome de Dona Marinha, casaram-se e viveram muito felizes com os seus filhos, os Marinhos.
Esta lenda, muito conhecida na península Ibérica e reivindicada por portugueses e galegos (D. Froião para alguns viveria na Galiza), aparece referida como um facto no "Nobiliário do Conde de Barcelos Dom Pedro", onde pode ler-se: « Dom Frojão, foi um bom cavaleiro; era caçador e monteiro; casou com Dona Marinha na Galiza, e teve vários filhos.»
Também um precioso manuscrito de Diego de Mendoza, existente na Biblioteca Nacional de Madrid refere a mesma lenda citada pelo Conde Dom Pedro sobre a origem dos Marinhos.
Teófilo Braga, nos "Livros de Linhagens" transcreve a mesma história mas com mais pormenores: como D. Marinha foi encontrada e capturada por Dom Froião e o seu baptismo.



"O ROMANCE DAS ILHAS ENCANTADAS" de J. CORTESÃO


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Jaime Cortesão, escritor e historiador especialmente interessado nos Descobrimentos Portugueses, reuniu numa pequena obra, "O Romance das Ilhas Encantadas", algumas das lendas que dizem respeito tanto à descoberta da Madeira como dos Açores, articulando-as, de acordo com algumas das versões encontradas, e estabelecendo entre elas e os factos históricos conhecidos uma interligação.
Ele próprio, no início da obra, diz:
" Este romance que ides ler..., não julgueis que de ponta a ponta o inventei, para depois vo-lo contar. Ele anda escrito, pedaço aqui, pedaço além, por velhos livros onde se recordam histórias contadas pelo povo nas idades antigas.
Por mim, pouco mais fiz do que juntar as folhas espalhadas e esquecidas dessa linda história, sacudir-lhes o pó e uni-las de seguida com o mesmo fio."
Diz "O Romance das Ilhas Encantadas" que, embora poucas vezes alguém navegasse ao largo, um ou outro navegante avistava, de longe em longe, algumas ilhas no Atlântico. Sabia-se até que São Brandão, um santo navegador, embarcara na Irlanda com setenta e cinco monges e que, apanhado numa tempestade, fora levado por ventos misteriosos até abordar uma dessas ilhas, na qual ficava o paraíso.
Anos mais tarde, quando os mouros conquistaram aos cristãos as terras que hoje constituem Espanha e Portugal, sete bispos partiram de barco da região onde é hoje o Porto, com os seus fiéis, e navegaram para Ocidente durante muito tempo, conseguindo abordar algumas das ilhas. Quando lá chegaram, queimaram os navios para que os seus homens não voltassem, e um bispo que conhecia as artes mágicas, encantou as ilhas para que ninguém as descobrisse, enquanto os mouros não tivessem sido expulsos da Península Ibérica. Porém, se alguém casasse com uma mulher marinha, os seus filhos, por herança da mãe, também as poderiam desencantar.
Daí em diante os mouros diziam que para Ocidente havia tanta escuridão que era impossível seguir para além. Só alguns cristãos sabiam que as ilhas existiam e nelas era sempre Primavera: as árvores estavam cobertas de frutos, havia muitas aves e o clima era ameno; outras tinham cidades fabulosas, com muitos palácios e riquezas (a ilha das Sete Cidades). No entanto, se algum marinheiro lá chegava perto, levado pelo acaso, não conseguia mais do que entrevê-las, pois logo um vento irresistível o atirava na direcção contrária, um nevoeiro se interpunha ou simplesmente a ilha se desvanecia como fumo.
Por isso chamavam-lhes as Ilhas Encantadas ou Perdidas, e todos ardiam no desejo de as encontrar.
Muito mais tarde, quando D. Afonso Henriques andava a conquistar as terras aos mouros, havia um nobre chamado D. João Froiaz, que vivia no Minho, num belo castelo ao pé do mar. Gostava muito de caçadas e montarias e nelas ocupava grande parte do seu tempo.
Certa manhã partiu com os seus homens para a caça, como habitualmente. Dirigiu-se para a foz de um ribeiro, na esperança de aí encontrar algum veado a matar a sede. Mas o que viu deixou-o espantado: no ponto onde as águas do mar e do rio se encontravam estava uma linda mulher marinha, de cabelos soltos e mal coberta por um vestido de algas. Dormia tranquilamente, gozando o sossego da manhã, com a cabeça apoiada nas plantas da margem.
D. Froiaz estava decidido a apanhá-la e por isso mandou os seus homens pararem. Com pezinhos de lã dirigiu-se para a mulher, mas ela deu pela sua presença e desatou a correr para o mar. Não chegou a tempo, pois o cavaleiro agarrou-a antes. Ela esbracejava e debatia-se, mas nem uma palavra dizia.
O fidalgo levou-a para o seu castelo, apaixonou-se por ela, baptizou-a com o nome de Marinha e casou com ela. E, com medo que ela fugisse para o mar, levou-a para outro castelo nas montanhas.
D. Marinha andava sempre a suspirar com as saudades do mar, embora o seu marido a tratasse com muito carinho e a rodeasse com delicadezas e cuidados, e continuava a não falar.
Entretanto já tinham filhos e D. Froiaz, cujo único desgosto era o silêncio da mulher, um dia armou uma grande fogueira, pegou no filho mais novo e fingiu que o arremessava para o lume. A mãe, numa grande angústia, gritou, tentando impedir o marido:
Ai, o meu filho!
D. Froiaz, eufórico, entregou-lhe a criança e disse que tudo tinha sido um estratagema para que ela falasse.
Depois disto D. Marinha ficou totalmente humana, e por isso puderam voltar para o castelo à beira-mar.
Aí os filhos, os Marinhos, ocupavam grande parte do seu tempo na praia a explorar grutas e reentrâncias da costa ou a nadar pelo mar dentro.
Uma vez D. Froiaz deixou escapar por distracção o filho mais novo, que trepou a uma rocha e foi levado por uma onda, que o arrastou para longe da praia. Louco de aflição, o pai já se preparava para se atirar à água, embora não soubesse nadar, quando uma coisa extraordinária aconteceu: o mar acalmou de súbito e uma onda enorme, como uma grande mão, veio depor a criança suavemente sobre a areia.
Quanto mais cresciam mais se notava que os filhos de D. Froiaz e D. Marinha eram netos do Mar: escutavam as histórias do oceano nos grandes búzios que apanhavam na praia, ouviam e falavam com as ondas, conheciam os segredos do mar como ninguém. E, quando cresceram, ganharam fama de serem os melhores mareantes do seu tempo.
O mais novo dos Marinhos, Machico, ouvira falar das ilhas encantadas e de que numa delas encontrara São Brandão o paraíso. Aprestou uma barca de mantimentos e aparelhos e partiu com alguns companheiros.
Quatro ou cinco dias depois de seguir pela rota que lhe haviam ensinado viu no horizonte nuvens que pousavam sobre o mar, sinal de terra próxima. Quanto mais se aproximavam, mais a névoa se adensava e ouviam-se estrondos enormes. Os marinheiros, cheios de medo, pensaram que ali era a entrada para o Inferno e pediram a Machico que voltasse para trás.
Mas de súbito, o nevoeiro descerrou-se e viu-se um espectáculo belíssimo: as rochas erguiam-se a pique sobre o mar; bosques de grandes e belas árvores desciam até à água; mais adiante estendiam-se montes que pareciam não acabar e um suave perfume espalhava-se no ar. Machico, perante o esplendor da ilha, convenceu-se que tinha chegado ao paraíso de São Brandão e, como a terra era toda coberta de florestas, chamou-lhe a ilha da Madeira.
Muito mais tarde, o Infante D. Henrique, filho do rei D. João I, que se interessava muito pelas coisas do mar, teve conhecimento da viagem do Machico por algum dos descendentes dos Marinhos, que nesse tempo já eram muitos. O Infante D. Henrique juntou, então, os Marinhos mais marinheiros que havia em Portugal no cabo de São Vicente e, uns com os outros e com os astrólogos que o Infante chamou, tornaram-se invencíveis na arte de domar as ondas. Da costa algarvia partiram a descobrir os segredos dos mares.
Uma das expedições do Infante conseguiu, apesar dos ventos e dos nevoeiros que dificultavam o caminho, chegar a outra das ilhas encantadas a Ilha das Sete Cidades onde encontraram os palácios e as riquezas de que falavam as lendas.
Ainda hoje existe nessa ilha, que agora se chama São Miguel, um lugar maravilhoso com aquele antigo nome Sete Cidades __ onde há uma lagoa, metade verde e metade azul, no fundo de uma cratera, rodeada de vegetação riquíssima.
Também na ilha da Madeira há um lugar chamado Machico, do nome do seu descobridor.
Mas só quando os cristãos conquistaram o reino de Granada, último território da Península Ibérica que ainda estava na posse dos mouros, de todo se desencantaram as terras, as ilhas e os mares. Coube aos Marinhos e seus descendentes, os marinheiros portugueses, essa tarefa.





===QUEM FOI JAIME CORTESÃO?===


external image e25_cortesao_jaime.jpgJaime Zuzarte Cortesão (1884-1960) nasceu em Ançã, Cantanhede, e faleceu em Lisboa. Tendo-se formado em Medicina em 1909, dedicou-se à poesia, ao teatro, à investigação histórica e à política. Fez parte de alguns governos da Primeira República, defendendo a participação de Portugal na Primeira Guerra Mundial onde participou como voluntário. Com Leonardo Coimbra e outros intelectuais, funda em 1907 a revista Nova Silva. Em 1910, com Teixeira de Pascoaes, colabora na fundação da revista A Águia. É um dos principais mentores da «Renascença Portuguesa».
Em 1921, é um dos fundadores da revista Seara Nova. Após a revolução de 1926, exila-se em França e em 1940 fixa residência no Brasil, dedicando-se à investigação histórica. Só regressa a Portugal em 1957.
Obras poéticas: A Morte da Águia (1910), Glória Humilde (1914), Missa da Meia-Noite (1940), Poesias Escolhidas (1960). Teatro: O Infante de Sagres (1916) e Egas Moniz (1918). Memórias: Memórias da Grande Guerra (1919). Ensaio: Eça de Queirós e a Questão Social (1949). História: A Experiência de Pedro Álvares Cabral e o Descobrimento do Brasil (1922), Alexandre de Gusmão e o Tratado de Madrid (1950), Os Factores Democráticos na Formação de Portugal (1964), O Império Português no Oriente (1968) e Os Descobrimentos Portugueses (6 vols., 1975-1978).


Fonte: António José Saraiva e Óscar LopesHistória da Literatura Portuguesa,Porto, Porto Editora, 1975

In: http://jc-lereviajar.blogspot.com/2010/11/quem-foi-jaime-cortesao.html|



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//Da esquerda, Jaime Cortesão,Aquilino Ribeiro e António Sérgio//